Tula

Estou sem inspiração para escrever algo hoje. Então vou resgatar algo de setembro de 2005.



Tudo começou quando minha família iria mudar de um apartamento para uma casa. Há tempos, quando passeava com uma criatura linda, porém muito pequena para muitos olhos, a minha pinscher Pantera, surgia em mim uma grande vontade de ter um cachorro bem grande. Com essa mudança, teríamos um quintal e surgia a oportunidade de realizar meu desejo. Meu pai, que também compartilhava dessa vontade, engenhosamente tinha me dito um tempo antes que se a gente mudasse ele arrumava um cachorro grande. Começamos a comprar revistas sobre cães, a ler sobre as raças e a sonhar com o novo cachorro, ou melhor, cachorra. Pensei em várias raças e acabei “decidindo” (forte influência paterna) que queria uma cachorra da raça boxer.
Aí começou a procura por um canil. Encontramos um que era entre Itapeva e Sorocaba, em Itapetininga e, em um final de semana fomos a esse canil encontrar meu mais desejado presente de Natal!
Chegamos no canil e entramos acompanhados pela criadora. Ela explica que da última ninhada de boxer só havia sobrado uma única fêmea castanha e duas brancas. Quando entramos vi dentro de um cercadinho um dos 4 melhores presentes que eu já ganhei em toda a minha vida (os outros 3: Pantera, Luke, Lilica, em ordem cronológica). Me apaixonei na mesma hora com aquela magrela, com patas grandes com “meias” brancas, super bochechas pretas com uma mancha branca que ia do focinho e entrava no meio dos olhos e o que eu vim a chamar de ovinho, o ossinho no alto da cabeça dela que era saliente. Quando cheguei perto do cercadinho ela começou a pular e a criadora perguntou se eu queria pegá-la no colo. Peguei e não larguei mais, era ela, abençoada sejam as pessoas que escolheram os outros filhotes da ninhada! Acertamos tudo e aí faltava escolher um nome que começasse com “T”. Minha mãe disse: Tula. E aí ficou esse nome mesmo. Até foto tiramos naquele dia, mas, infelizmente, como em dezembro a família iria para praia, minha Tula ficou no canil e a gente ia buscar só depois das festas de fim de ano.
Não agüentava de tanta ansiedade!
Até que chegou o dia de buscar minha bochechuda! Ela foi quietinha a viagem toda, mesmo com a danada da Pantera rosnando para ela! Pena que a minha pequena Pantera só se arrependeu disso antes dos seus últimos dias de vida, quando até brincar com a Tula brincou. Em casa, nos primeiros dias, ela chorava toda noite, várias vezes. Eu e meu pai alternávamos a ida ao canil para fazer pará-la de chorar. Lembro que sentava e minha Tula deitava a cabeça no meu colo e dormia. Depois que ela dormia, eu saía bem devagarzinho. A alternância funcionou nos dois primeiros dias somente, depois, ela só parava de chorar se eu saísse lá fora, ou seja, melhor para meu pai que passou a dormir a noite toda. Ainda bem que essa fase passou logo.
Era época de férias, então, quando eu não estava no quintal brincando com a minha Tulão, eu estava no meu quarto. E quem pensa que nesse momento a gente estava longe, se engana. Ela sempre estava deitada embaixo da janela do meu quarto! E assim nossa amizade foi crescendo... eu passava tardes brincando com ela, de pega-pega, esconde-esconde, bolinha, ou apenas sentava e ela deitava no meu colo. Bem, até um tempo ela conseguia deitar no meu colo, depois que ela cresceu, só a cabeça dela cabia no meu colo! Aí, de vez em quando, para deixá-la feliz eu perguntava se ela queria colo, ela vinha toda feliz e ficava quietinha na minha frente para eu carregá-la. Como ela era pesada, eu conseguia ficar alguns segundos somente com ela no colo, mas quando a colocava no chão ela saía balançando literalmente o corpo todo de tanta felicidade e o meu coração se enchia de alegria. Eu só pensava em como um animalzinho podia ficar tão feliz com um gesto tão pequeno.
Assim, sempre cuidei dela com o maior carinho e parecia que ela me entendia. Ela era tão bagunceira que tive que cuidar 2 ou 3 vezes de pata torcida! E ela sempre se comportava. E como gostava de banho! Era eu pronunciar o convite e ela já ficava paradinha na minha frente esperando. Na verdade, eu acho que ela gostava é de água! Quando eu lavava o quintal, ela sempre entrava na frente da mangueira e perseguia e mordia a água. Era tão engraçado! Eu me matava de tanto rir! E assim foram tardes inteiras de muita diversão, companheirismo, molecagem e amizade!
Mas ela não fez só a minha felicidade não... Ela foi o primeiro amor do Luke! Como o Luke gostava da Tulinha! Até de mim ele esquecia e ficava lá no quintal infernizando a vida da pobre cachorra com mordidas, corridas e brincadeiras, e ela, conhecida por ser super carinhosa e até tonta de tão boazinha, suportava aquilo pacientemente. É claro que ela adorava brincar com ele, mas nem dormir ela conseguia!
A Tula foi amada por muita gente: minha família, alguns parentes (o Vitor perdeu o medo de cachorro por causa dela!), a Bete e suas filhas, as filhas da Clarice (uma amiga da minha mãe)... ela até ganhou um brinquedo de crianças que passavam todo dia na frente de casa e brincavam com ela. E ela nunca esqueceu de mim. Mesmo eu passando 4 anos fora de casa, toda vez que eu chegava ela me recebia da mesma maneira: balançava rabo, bunda, cabeça... o corpo todo! E chorava, chorava! E eu amava chegar com aquelas boas-vindas. Sempre saía lá no quintal e abraçava a minha Tulão. Que felicidade!
Até que, há duas semana atrás, ela começou a ficar doente. Levamos no veterinário e começamos a cuidar dela, mas ela não melhorava. Sexta-feira, cheguei em casa meio puta com algumas coisas da vida e fiquei na sala mesmo até que a Lilica começou a me atormentar, me fez rir com aquelas gracinhas dela e eu animei e resolvi ir comer. Indo para a cozinha, meu pai pediu para eu tentar fazer a Tula levantar para poder dar remédio. Aquilo foi o primeiro baque. Apareci na porta do quintal e vi meu amor deitado no chão. Chamei e ela levantou a cabeça e balançava o rabo com a mesma intensidade de sempre, mas não conseguiu levantar. Fui até ela e comecei a acariciá-la. Ela ficou deitada, quietinha e eu comecei a chorar. Nunca tinha visto aquela cachorra quieta! Fazia dias que ela não comia e nós resolvemos dar só aquela carne de lata que é mole para ver se ela comia. Ela comeu vorazmente, devia estar com uma fome! Aquilo cortou meu coração.
Resolvi levá-la em outro veterinário, apesar de já ser noite. Meu pai achou melhor que ele viesse, porque minha Tula era pesada e como meu pai não pode fazer força e é difícil para mim carregá-la, ia ser complicado levá-la ao consultório. O veterinário chegou, a examinou e disse que era um linfoma (câncer no sistema linfático). Eu não sei se meu pai já sabia o que era, mas eu saquei na hora que não tinha mais jeito assim que ouvi essa palavra e as lágrimas começaram a sair de meus olhos. Simplesmente não consegui não chorar! O veterinário continuou explicando e eu já sabia que ela só iria continuar sofrendo até morrer de fome porque não conseguia comer mais, quando ele disse que o estágio estava muito avançado para uma quimioterapia ou radioterapia funcionar. Meu pai perguntou então como a gente poderia acabar com aquele sofrimento, pois minha Tulinha já tinha dado muita alegria para nós. E o veterinário começou a explicar o procedimento e eu fui limpar o rosto. Voltei e meu pai perguntou o que eu queria fazer, se queria cuidar dela. Eu quase não consegui dizer pois o choro cortava minhas palavras, mas disse que não queria que ela sofresse mais. Ela me deu tanta felicidade que a última coisa que eu poderia fazer por ela é não deixar ela sofrendo. Lendo assim parece muito fácil, mas foi a coisa mais difícil que já disse na minha vida! Eu não queria que ela me deixasse, eu a amo demais, mais do que gosto de muita gente, também, ela me deu mais alegria que muitas pessoas que já cruzaram meu caminho. Nesse momento tudo o que eu lembrava eram daquelas tardes maravilhosas! Pela última vez eu perguntei se ela queria vir no meu colo para eu poder levá-la para o carro, mas ela não conseguiu levantar e eu consegui pegá-la mesmo assim.
No carro, a caminho da clínica, ela colocou a cabeça na minha mão, estava tão pesada, nem a cabeça ela conseguia sustentar... ela só me olhava e nesse momento percebi que o ovinho dela (aquele ossinho da cabeça dela que falei no começo de tudo) estava aparecendo novamente (porque ela estava magra) e tudo o que eu lembrava era da primeira vez que a vi. Eu disse espontaneamente: nossa, o ovinho! E o veterinário não entendeu nada... e pela última vez passei a mão no ovinho dela, do jeito que sempre fazia quando ela era pequenininha.
Chegamos lá, a colocaram em cima da mesa e eu e meu pai ficamos lá esperando, fazendo carinho na nossa cachorra, no meu amor. Várias vezes eu sai e entrei na sala, chorei, mas não como eu estava com vontade, afinal, eu não estava em casa. Até que chegou a hora e nem eu nem meu pai tivemos coragem de ver. Quando voltei ela já tinha me deixado e tudo que eu lembrava era da primeira vez que a vi, das nossas tardes e das minhas boas-vindas.E ela me mostrou novamente que eu acertei quando escolhi ser bióloga ao invés de médica veterinária. Eu e meu pai não conseguíamos ir embora da clínica. Nessa hora tive que ser forte e falar para meu pai umas 3 vezes para a gente ir embora enquanto ele ficava lá parado. Entramos no carro e começamos a chorar. Meu pai colocou a cabeça no volante e tentava segurar o choro.
Voltamos para casa. Cheguei e abracei meus dois amorzinhos, o Luke e a Lilica. Eles não paravam de cheirar minha roupa e eu chorei muito. Fui ao banheiro, não queria que meus pais ouvissem, sei que eles que já estavam muito tristes ficariam mais tristes ainda, mas queria principalmente que meu pai não ouvisse. Mas eu não consegui, eu chorava tão alto, eu estava tão triste da minha Tulinha ter ido daquela maneira, que eu não conseguia me conter. Que dor horrível!
Meu pai foi direto tomar uma cerveja e eu ouvi ele chorando. Consegui me controlar e fui lá dar um abraço nele. Acho que se não tivesse pensado nele e na minha mãe, não tinha parado de chorar naquela noite. Novamente vi como eu sou forte... eu consegui parar de chorar naquele momento por causa de meus pais, odiei ver eles tristes! Nunca imaginei que conseguiria parar de chorar naquele momento!
O difícil agora é olhar para o quintal esperando ver aquela bochechuda e não ver nada! O Luke está sentindo falta da Tulinha também... vira e mexe ele dá uma olhadinha dentro da casa dela. A saudade já é grande! Vai ser difícil chegar em casa novamente no próximo fim de semana e não ter as boas vindas. Vai ser triste sair no quintal e não ter uma gordona com a barriga pra cima pedindo carinho ou se esfregando nas suas pernas.
O meu consolo é que eu aproveitei o máximo que eu pude o tempo que eu tive com ela. Eu dei o meu amor, carinho, respeito, cuidado, comida e atenção. Retribui seu amor e sua lealdade. É aqui que deixo o meu recado: se você tem um animalzinho o ame e o respeite muito, será uma das melhores coisas da sua vida. Se você não é capaz de amá-lo e respeitá-lo (não é porque ele é um cão, um gato ou qualquer outra coisa que ele merece menos respeito que os humanos), então não arrume um, a dedicação e o amor que eles oferecem não devem ser desperdiçados e a vida deles é responsabilidade sua, infelizmente eles não podem se defender.
TULA: Você foi linda e deixará muitas saudades! Você foi leal e me proporcionou muita alegria! TE AMO DEMAIS! Deixo aqui a minha homenagem em forma de palavras (poucas para demonstrar tudo o que significou).

Comentários

Márcia disse…
Preciso dizer que as lágrimas escorriam enquanto lia sobre a Tula? Ainda mais que o meu melhor amigo está com a mesma doença que a sua lindeza?

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