Cazuza estava certo

Pensei que o primeiro post depois da cirurgia ia ser algo lindo como sobre olhar o mundo com outros olhos, fazer um paralelo com como ver o mundo, as perspectivas, a vida, a alegria, a felicidade... bom, é sobre como eu vejo o mundo, mas não tem nada de lindo. Venho com revolta mesmo.
Revolta com esse país, com a moral das pessoas. País conhecido por sua gente amigável, alegre, feliz, pelas lindas paisagens... também pelas bundas enormes e corpos nús no Carnaval. Bom, adoro a parte de que somos amigos. Já estive em alguns outros lugares fora do Brasil e sempre fui tratada muito bem porque afinal, somos amigos de todo mundo, o país do futebol e do samba e da depilação. E como mulher é meio chato porque os homens já ficam assanhadinhos achando que você vai balançar a bunda e mostrar a xana toda depilada para eles. Soube impor respeito, isso que importa. Não vou ficar discutindo se é ou não é legal ficar mostrando a bunda em todo lugar. Os desfiles de Carnaval são bonitos e a minha revolta é com o famoso jeitinho brasileiro.
Jeitinho que todo mundo tem para uma coisa ou para outra. E fica difícil não fazer algo assim em algum momento de sua vida com tanta burocracia, tanta incompetência, tanto atraso e tanta falta de vontade. Parece uma bola de neve.
E o jeitinho mais fácil de ter o que não se tem é roubar. Hoje, roubar até de quem não tem. Roubar principalmente de nós que temos algo, mas que um roubo faz a diferença...
Eu sei que há pobreza, falta de educação, de saúde, do caraio a quatro, mas quem rouba o pneu reserva de um carro em um estacionamento ou no lava rápido tem emprego. Pode não ganhar muito, a vida pode ser super difícil, não ter dinheiro suficiente para luxo. Mas também não tem moral. Há muitas pessoas que passam fome e nunca roubam. Quantas mães cozinharam para fora a vida inteira, tiveram uma vida humilde, mas criaram seus filhos? Nunca estive na pele de nada parecido (graças a meus pais), mas eu não consigo entender gente que rouba. Falta pedreiro, falta jardineiro, falta empregada doméstica. Sempre vejo vagas de várias coisas que exigem quase nada de estudo no telejornal. Sim, há desemprego, claro. Mas também há oportunidades. Existe a escolha também entre pedir e roubar. Então para mim acaba sendo invariavelmente uma questão de moral. A não ser que estivesssemos em guerra sem nada para comer e ninguém para pedir, roubar é a escolha de quem é orgulhoso demais para pedir e preguiçoso demais para trabalhar mais. Conheci gente que trabalhava em um lugar durante o dia, vendia lanche a noite e fazia churrasco nos finais de semana, enquanto a mulher fazia bolo e salgado para vender. Posso estar errada e é claro que existem exceções. Mas eu tenho o direito de ficar revoltada.
Vou falar em português nada correto agora:
EU TO PUTA! EU TO DE SACO CHEIO!
Tentaram roubar meu carro em dezembro, no NATAL! Não levaram nada porque não tinha o que levar, bem-feito, perderam tempo HAHAHAHA Mas eu gastei 100 reais para consertar a fechadura da porta e os cabos da bateria. Não é muuuito dinheiro, mas são 100 reais que eu podia usar para outra coisa, como por exemplo, pagar 10 dias de almoço ou guardar para quando eu acabar o doutorado e for desempregada por um tempo. E o que o dinheiro não paga... a tranquilidade. Eu não fiquei nervosa porque os danos foram pequenos e o seguro me mandou um guincho. Também não fiquei nervosa com a idéia de ter alguém ali perto me esperando entrar no carro e não conseguir andar com ele para me sequestrar, o que foi estranho, sempre achei que iria enlouquecer. Mas e a dor de cabeça de ligar no guincho, esperar o guincho, ouvir meu pai dizendo que eu não devia ter parado na rua (não tinha estacionamento perto do bar!), levar o carro no mecânico, levar o carro consertar a fechadura e assim por diante? Ainda que eu sou doutoranda e faço meus horários quando não tenho experimentos! Imagina para quem trabalha em horário comercial?
Tá. Aí em janeiro fui assaltada. Por sorte só o imbecil só levou dinheiro. Se tivesse levado minha carteira eu tinha tido a dor de cabeça master porque, além do tormento de ter que fazer carteira de motorista nova e do cartão do banco, da unimed, de estudante... no dia seguinte eu ia pegar avião. E também por sorte o marginal só ameaçou usar a faca. E mais uma vez eu não fiquei nervosa. Perdi 35 reais, o dinheiro que ia usar para o táxi no dia seguinte, mas como ganhei uma carona, ficou tudo certo.
E nessas eu descobri que uma calma me invade nesses momentos de perigo. Eu pensava que ia ser o contrário, que eu ia querer dar um soco na cara da pessoa ou sair correndo. Não sinto nada, não me dá medo de morrer, penso racionalmente. Será que eu não tenho medo de morrer? Deixa pra lá!
Até que agora eu fiquei muito revoltada. Me senti uma palhaça mesmo. Depois que voltei de viagem não tinha aberto o porta-malas do carro até ontem, quando vi que o pneu reserva do carro não estava ali já que tinha um buraco no chão do porta-malas. Não arrombaram meu carro e não acredito que nenhum Noturno (X-men) roubou isso. Então foi em algum lugar que tinha a chave e só deixei o carro em três lugares assim: no lava-rápido, no estacionamente do Oftalmocenter para fazer a cirurgia e na oficina. Em algum desses lugares tinha um filha da puta que me roubou e o que me deixa puta é que a quebra na confiança. E a cara de pau dos ladrões. E mais, cara de pau favorecida pela impunidade. Como é que vamos provar? Alguém vai investigar? Claro que não!
E agora a dor de cabeça de ligar nos lugares para saber onde tem o pneu e a roda X, descobrir que o lugar X tem o pneu mas não tem a roda, o Y o contrário, o outro não te atende direito, ir na loja, enfretar trânsito, mais gente mal educada, risco de ser assaltada e gastar uma puta grana que podia estar indo para a minha poupança mês que vem. E ainda não to enxergando direito, queria ficar em casa descansando a visão!
Pelo menos vou ter o dinheiro para pagar. Depois dessa me deu até vontade de vender o carro.
TO DE SACO CHEIO DESSE PAÍS!
Tamanha a minha revolta que estou aqui fazendo um esforço com os olhos para escrever isso.
E o pior é que sei que preciso fazer algo para mudar as coisas. Eu faço a minha parte: respeitar as pessoas, ser honesta, educada, pagar minhas contas, respeitar as leis, as datas e os horários, tento votar direito, etc. Mas ontem me deu tanto ódio que eu xinguei de dentro do meu carro o mundo inteiro. Deu vontade de ser sem educação, já que é raro os lugares em que somos bem atendidos. Deu vontade de esquecer de pagar as contas, já que me roubam o dinheiro que ia usar para isso. Ainda bem que meus valores me impedem.

PS: obrigada pelos recados... espero conseguir ler direito logo, to sentindo falta de ler o blog de vocês!




Comentários

Madame disse…
Nao é facil em todos os sentidos viver aqui.

Concordo contigo.

bjus
Juci Barros disse…
E como não ficar revoltada?!
Melhoras!

Beijos.
Dri Andrade disse…
Cazuza sempre acertava no pulo.

bjs
Izabela e Julia disse…
eu me revoltei só de ler... imagina vc!

ahh vlw pelo conselho lá no blog :D

Postagens mais visitadas deste blog

A importância que damos às pessoas

página em branco

Desconstruindo